Novo mercado para médicos gestores

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Os médicos estão descobrindo que existem boas oportunidades de desenvolver a carreira fora dos consultórios e hospitais. Cada vez mais empresas relacionadas ao setor de saúde como seguradoras e laboratórios farmacêuticos vêm contratando os serviços desses profissionais, que passam a somar técnicas de gestão aos conhecimentos médicos.

A headhunter Laís Passarelli, diretora da Passarelli Consultores, reconhece que havia certo preconceito dentro da própria categoria contra médicos que seguiam carreira corporativa. "Era uma visão antiquada de que isso representaria, de alguma forma, o abandono dos ideais da medicina. Na verdade, esta é apenas uma outra forma de se exercer a profissão", destaca.

A demanda por médicos entre as empresas que lidam com seguro-saúde, por exemplo, aumentou muito ao longo da última década. Foi quando o setor se deu conta de que a tradicional abordagem tratativa - fornecer carteirinhas para atendimento dos associados em uma rede de médicos credenciados - logo estaria com a viabilidade comprometida. Seria preciso associá-la a uma estratégia preventiva que ajudasse a reduzir a demanda pelos atendimentos e limitar os custos para as empresas, que viam a saúde consumir fatias progressivamente maiores do orçamento.

O atendimento médico se tornara o segundo maior custo do RH na maior parte das empresas, perdendo apenas para a folha de pagamento. Ao mesmo tempo, começava a se proliferar o conceito de que manter os funcionários saudáveis tem reflexos positivos na lucratividade das empresas - daí a onda de programas de controle de peso, combate ao tabagismo, ginástica laboral entre outros.

Tudo isso foi atraindo os médicos para dentro da gestão da saúde, pois as soluções já não podiam mais ser arquitetadas e geridas apenas por administradores e economistas. Em muitas funções, era preciso conhecimento de causa. "Não há outra opção: o trabalho que faço precisa ser feito por um médico", diz Márcio Botter, 43 anos, um dos mais recentes contratados da Aon Consulting.

Há sete meses na casa, depois de quase 20 anos de carreira dedicados exclusivamente ao atendimento de pacientes, o clínico geral e especialista em cirurgia de tórax não esperava a reviravolta na carreira até receber o convite para cuidar exclusivamente de um cliente da seguradora, a Clariant, do ramo petroquímico.

"Faço toda a interface da empresa com o plano de saúde. Gerencio as internações de alto risco, os maiores usuários e os doentes crônicos, por exemplo. Todo dia tenho problemas do gênero para resolver", descreve. "A diferença em relação ao trabalho de consultório é que estou cuidando simultaneamente de seis mil vidas, e não de apenas um paciente. Tenho vários colegas que seguiram o mesmo caminho e ninguém se sente menos médico por isso", acrescenta.

Segundo Laís Passarelli, a dificuldade para encontrar no mercado profissionais que reúnam conhecimentos médicos e de gestão ainda é grande. As oportunidades para quem tem esse perfil, contudo, deverão se ampliar ainda mais nos próximos anos. "Há cargos para os quais as empresas na área de saúde dariam preferência a médicos, pois consideram importante ter alguém que fale de igual para igual com os clientes", afirma. Para seguir carreira como gestor, contudo, não é preciso pendurar o estetoscópio. O mais comum, pelo menos por enquanto, é que as duas atividades continuem sendo exercidas simultaneamente. O próprio Márcio Botter continua se dedicando às cirurgias, ainda que em menor volume, e lecionando na Santa Casa de São Paulo nas manhãs de quinta.

A Aon, aliás, incentiva seus funcionários médicos a preservar não apenas parte das atividades de consultório, mas também as acadêmicas, no caso de quem dá aulas. "Isso é muito importante para trazer as últimas novidades e manter a empresa atualizada", explica Marcelo Munerato, vice-presidente da Aon Consulting, divisão especializada na elaboração, análise e administração de programas de benefícios, com 30 médicos na equipe.

Para Munerato, permitir flexibilidade de horário é uma das premissas para lidar com esse público. A Aon tem academia interna de negócios, onde os profissionais podem adquirir conhecimentos em gestão por meio de cursos oferecidos regularmente.

O setor de saúde cresceu tanto dentro da empresa nos últimos anos que já responde por 75% do faturamento da Aon Consulting e 34% de todo o faturamento da empresa no Brasil - a seguradora tem 800 funcionários no país. "Uma das grandes vantagens de ter médicos na equipe é que eles adquirem tal nível de equilíbrio emocional ao longo da carreira que tiram de letra problemas que parecem ser o fim do mundo para os demais gestores", compara Munerato.

Menos plantões na UTI e mais tempo para a vida pessoal

A médica Alessandra Pimentel da Silva, 36 anos, sabe bem o quanto o cotidiano da profissão que escolheu pode ser exaustivo. Em 2007, ela trabalhava em UTIs de cinco diferentes hospitais de São Paulo e chegava a cumprir sete plantões por semana, cada um deles com 12 horas de duração. Não sobrava tempo e muito menos disposição para compromissos sociais.

Foi quando surgiu o convite que representaria uma mudança radical tanto na carreira quanto na vida pessoal: uma das chefes perguntou se Alessandra estaria interessada em cobrir a licença-maternidade de uma gerente do laboratório AstraZeneca. Seria um trabalho de meio período como gestora da área de pesquisa clínica em oncologia, área em que Alessandra, formada em Medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), especializara-se ao cursar pós-graduação na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). "Nunca tinha pensado em ocupar um cargo gerencial e aceitei o convite acima de tudo pelo desafio que isso representava", lembra.

Alessandra reduziu a carga horária nos hospitais para se dedicar ao novo trabalho. Ao final do período de licença da titular, foi convidada a participar do processo seletivo para um cargo recém-criado no laboratório, a gerência de farmacoeconomia. Escolhida para exercer a função, ela logo se apaixonou pela ciência que avalia a relação entre custos e efeitos de um equipamento, programa ou produto ligado à indústria farmacêutica.

Essa preocupação despontou no pós-guerra para ajudar países devastados a lidar com um grande número de doentes e está voltando à tona com o gradual aumento da expectativa de vida da população, fator que resulta em um número crescente de pessoas convivendo com doenças crônicas. "Uma tarefa típica da farmacoeconomia é comparar preços e marcas de tomógrafos com diferentes configurações e indicar a escolha de um deles com base na melhor relação entre preço e benefícios", exemplifica.

Mesmo com a nova fase da carreira, ela fez questão de continuar clinicando. O emprego no laboratório ocupa 40 horas entre segunda e sexta, o que permitiu manter o vínculo com um dos hospitais - aquele com o qual tinha mais afinidade. A diferença é que agora são apenas quatro plantões mensais, sempre aos fins de semana. Com isso, Alessandra está trabalhando ao todo cerca de 52 horas semanais, ante as 84 horas do período pré-vida corporativa, quando chegou a ficar seis anos consecutivos sem passar o Natal com a família. "Acho que nem preciso dizer o ganho significativo de qualidade de vida que tudo isso representou. Hoje vivo sem olheiras e até compareço a festas", brinca.

O rendimento total se manteve no mesmo patamar e ela passou a desfrutar de uma série de benefícios aos quais não tinha acesso como carteira assinada, férias remuneradas, plano de saúde, carro da empresa, reembolso da academia, salão de beleza, previdência privada e participação nos lucros. "Não perdi o contato com o trabalho em UTI, e, ao mesmo tempo, descobri outro lado da medicina. Ver como as pesquisas acontecem e entender os mecanismos do mercado contribuiu para me tornar uma médica melhor. Hoje eu me preocupo em saber se o paciente tem condições de comprar determinado medicamento antes de prescrevê-lo", diz.

Para adquirir conhecimentos gerenciais, algo que não faz parte do currículo dos cursos de medicina, Alessandra está cursando MBA em gestão empresarial na Fundação Getúlio Vargas (FGV). Ao identificar a demanda pela maior profissionalização da gestão da saúde, a instituição criou cursos específicos para a área, incluindo opções customizadas para empresas. "Aprimorar a gestão é o caminho para um setor que passa por grande pressão por aumento de produtividade e redução de custos", considera Goret Pereira Paulo, diretora adjunta da FGV in Company.

Ela percebe um maior interesse dos médicos pela carreira gerencial, algo que interpreta também como uma reação da categoria à crescente presença de administradores profissionais nas empresas do setor. "Ter formação médica é um diferencial muito importante, mas não é tudo. Um excelente cirurgião só se tornará um bom gestor se buscar ferramentas para isso", diz.

Entre os MBAs oferecidos pela FGV na área estão os de auditoria em saúde, gerência de saúde e gestão empresarial em cooperativas médicas. Cada um deles tem uma carga horária entre 440 e 475 horas. Além disso, existe um curso de pós-graduação a distância intitulado gestão para médicos, que se adapta aos horários irregulares típicos da categoria.

Fonte:
Maurício Oliveira
Valor Online

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