Médicos de Alagoas ameaçam descredenciamento

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Que a rede de saúde pública alagoana vive, há algum tempo, uma situação de colapso já não é novidade pra ninguém. A triste novidade de agora é que a crise também começa a atingir em cheio os planos de saúde, que são encarados por muita gente como a única alternativa para ter atendimento de saúde com um mínimo de qualidade. Os problemas se acumulam e não é raro encontrar usuário insatisfeito com a operadora que lhe cobra, religiosamente, quantias razoáveis de mensalidade.


Prova da insatisfação do cliente são os processos que começam a se acumular em órgãos de defesa dos direitos consumidor como Procon. Como se não bastasse o alerta do Sindicato dos Médicos (Sinmed) para a possibilidade de descredenciamento de muitos especialistas médicos dos planos de saúde, muitas operadoras abusam da paciência do usuário e o testa com filas de espera gigantescas, consultas mal feitas e hospitais sem um critério adequado para atendimentos e até de higiene.

“Será que chegaremos ao ponto de não dispor de médicos credenciados ou de atendimentos dignos?”, questionam alguns usuários, já sentindo os sinais de que “algo ruim” põe em xeque também a saúde privada em Alagoas.

Os sinais de um possível descredenciamento de especialistas médicos foram oficialmente emitidos no início deste mês, quando o Sinmed divulgou a decisão tomada por praticamente todos os 38 urologistas alagoanos. Repentinamente, os profissionais especializados no aparelho urinário se descredenciaram de praticamente todos os planos de saúde que operam no Estado, sob a alegação de que a remuneração paga pelos procedimentos é baixa. Ou seja, o repasse financeiro das operadoras, não tem sido feito na mesma proporção dos aumentos que, anualmente são cobrados aos usuários.

Por conta disso, encontrar urologista filiado a planos de saúde tornou-se tarefa árdua em Maceió. Que o diga o autônomo Marco Antônio Silva, de 48 anos. Ele tentou marcar a consulta de retorno para seu médico e levou um susto. “A secretária me informou que ele só estava atendendo particular. Aí, pensei: ‘e agora, o que farei com o resultado do exame de sangue e da ultrasom da bexiga e da uretra?’ Até agora, estou com os exames guardados em casa, pois não tenho R$ 150 para pagar pela consulta”, lamentou o usuário, afirmando se sentir lesado, já que pagou a mensalidade do plano de saúde que, em tese, lhe daria direito para o atendimento ambulatorial.

Operadoras já começam a ressarcir clientes

Diante da necessidade de atendimento médico e, da negativa do profissional em atender pelo plano de saúde, o usuário se vê numa situação complicada, principalmente se ele não tiver dinheiro para bancar a consulta.

Como alternativa ao problema anunciado, o Sinmed já adianta uma solução que é entrar com um pedido de ressarcimento junto às operadoras. Trocando em miúdos: o paciente paga pela o preço que o especialista quiser cobrar e depois entra com um pedido de reembolso no plano de saúde.

Na prática, isso já começa a ser feito. O gerente de Saúde da Excelsior Maceió, Marcos Aurélio Vasconcelos, reconhece que a maioria dos 18 urologistas que dispunha na sua rede de atendimento já pediu afastamento. Por conta disso, desde o início deste mês, já houve três pedidos de reembolso. Cada um, no valor de R$ 100. “Estamos ressarcindo nossos usuários e, em paralelo, tentando localizar a associação de classe dessa especialidade para realizarmos uma proposta de trabalho. Simultaneamente estamos contratando profissionais para fazer visitas hospitalares para nossos pacientes que precisarem”, explicou Marcos Aurélio.

Quando o cliente nunca tem razão

Como não podia deixar de acontecer, os usuários estão preocupados como a possibilidade de descredenciamento de várias especialidades médicas dos planos de saúde. Sem a opção de uma saúde pública de qualidade, muitas pessoas não têm escolha a não ser não pagar planos para garantir atendimento médico. E, claro, quem paga pelo serviço, busca qualidade, agilidade no atendimento e o mínimo de respeito aos direitos de consumidor adimplente com suas mensalidades.

Mas infelizmente, em muitos casos, a máxima de “o cliente tem sempre razão”, sequer é lembrada pelas operadoras.

Por exemplo, para muita gente que usa planos de saúde, marcar uma consulta hoje é a mesma coisa que pegar uma ficha no SUS. Neste caso, o problema é o pequeno número de médicos credenciados em algumas especialidades. Por causa disso, alguns pacientes chegam a esperar até três meses por uma consulta. “O que me deixa mais chocada é a demora para ter uma simples consulta. Marquei agora, mas só vou ser atendida em agosto”, disse a comerciária Janaína Lopes. Ela conta também que já chegou a pagar R$ 150 por uma consulta particular, pois a médica que a acompanhava tinha se descredenciado do plano e ela não poderia interromper o tratamento.

Contas pagas e sem direito de usar

Contas pagas, comprovantes em mãos e um plano de saúde desorganizado que ameaçava a usuária com a possibilidade de não atendimento. Essa foi a mistura pela qual uma cliente passou, na última sexta-feira. Ela conta que, após receber um telegrama da operadora Saúde Excelsior pedindo o comparecimento à sede para quitar uma mensalidade em aberto, estranhou, já que nenhuma conta havia deixado de ser paga.

“Fui à sede da operadora com o boleto e o comprovante do pagamento em mãos. Mas depois de entrar em contato com o departamento financeiro, a atendente me informou que o problema foi que o meu banco não tinha passado o valor pago ao banco deles. E eu deveria resolver a situação. Enquanto isso, o meu plano estava suspenso, mesmo eu tendo o comprovante de pagamento. Fiquei indignada, principalmente porque meu banco garantia que o valor tinha sido repassado e que o problema estava com a operadora”, contou a usuária que preferiu manter o anonimato.

O que diz a Ordem

Segundo presidente da Comissão de Saúde e Bioética da OAB, Diógenes Tenório, o consumidor terá que estar muito atento ao fechar contratos com planos de saúde, para saber quais especialidades terá direito. Mas se o plano for completo, o consumidor estará totalmente coberto. “A operadora tem a obrigação de prestar assistência ao usuário, mas o que acontece é que eles só visam o lucro e isso acaba colocando a vida das pessoas em risco. Essa precariedade está virando rotina nos planos”, disse.

Elisana Tenório e Fabyane Almeida

Fonte:
O Jornal (2/5/2010)


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